{"id":10911,"date":"2020-09-28T00:00:00","date_gmt":"2020-09-28T03:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/iabrs.org.br\/um-instituto-de-arquitetos-para-o-brasil\/"},"modified":"2025-09-22T16:02:06","modified_gmt":"2025-09-22T19:02:06","slug":"um-instituto-de-arquitetos-para-o-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/veraz.com.br\/iab\/um-instituto-de-arquitetos-para-o-brasil\/","title":{"rendered":"Um Instituto de Arquitetos para o Brasil"},"content":{"rendered":"<div style=\"text-align: center;\">\n<p><strong>Discurso de posse da Dire\u00e7\u00e3o Nacional do IAB 2020\/2023<\/strong><\/p>\n<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">\n<p>Colegas, representantes de nossas institui\u00e7\u00f5es nacionais e internacionais, boa noite.<\/p>\n<p>Antes de mais nada, nosso reconhecimento ao precioso trabalho da \u00faltima Dire\u00e7\u00e3o Nacional, liderada pelo Departamento da Bahia, orientando com altivez os rumos de nossa entidade em tempos t\u00e3o dif\u00edceis para a Na\u00e7\u00e3o, para a sociedade e, por isso mesmo, para a nossa profiss\u00e3o. Se podemos hoje almejar avan\u00e7os, \u00e9 porque partimos do legado de todos os que nos antecederam. A voc\u00eas, nossa imensa gratid\u00e3o.<\/p>\n<p>A arquitetura e as cidades n\u00e3o s\u00f3 nos dizem quem somos, mas o que podemos e o que queremos ser. Respondem \u00e0s trag\u00e9dias e \u00e0s possibilidades de seu tempo. No entanto, os tempos s\u00e3o muitos, t\u00e3o diferentes para cada um, enraizados na hist\u00f3ria e no territ\u00f3rio. Coube a n\u00f3s viver mais uma vez tempos sombrios. De tristeza, desesperan\u00e7a, fuma\u00e7a, descaso, terra arrasada.<\/p>\n<p>Terra, esse am\u00e1lgama que nos une, mas tamb\u00e9m divide. No campo, na floresta, na cidade, nos problemas e nos desafios que vivemos, ela, a terra, \u00e9 elemento central. A desigualdade hist\u00f3rica no acesso \u00e0 terra reflete os grandes temas atuais &#8211; identit\u00e1rios, ambientais, alimentares, econ\u00f4micos &#8211; e n\u00e3o haver\u00e1 solu\u00e7\u00e3o alheia ao acesso \u00e0 terra como direito, bem comum e necessidade vital.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 mais Terra para vivermos do mesmo modo, e j\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 mais tempo.<\/p>\n<p>H\u00e1 4 anos um golpe usurpou a presid\u00eancia da primeira mulher eleita no Brasil, e ainda hoje os mandantes do assassinato de Marielle Franco continuam impunes. No Brasil, s\u00e3o 140 mil mortos pela pandemia;\u00a0 muitas dessas mortes poderiam ter sido evitadas. As chamas na Amaz\u00f4nia, no cerrado, no pantanal, exterminam nosso patrim\u00f4nio natural, causam impactos ambientais, clim\u00e1ticos, sociais e econ\u00f4micos, de propor\u00e7\u00f5es incalcul\u00e1veis e de extens\u00e3o continental.<\/p>\n<p>As comunidades tradicionais &#8211; respons\u00e1veis por mil\u00eanios pela preserva\u00e7\u00e3o desses biomas\u00a0 &#8211; s\u00e3o v\u00edtimas de um processo colonial de usurpa\u00e7\u00e3o de suas terras e modos de vida. O mundo observa incr\u00e9dulo a in\u00e9pcia e a cumplicidade das autoridades nacionais.<\/p>\n<p>O desmonte da ind\u00fastria nacional, da ci\u00eancia, da cultura, dos direitos sociais e econ\u00f4micos, a\u00a0 explora\u00e7\u00e3o do trabalho, bem como a expans\u00e3o da agropecu\u00e1ria de exporta\u00e7\u00e3o e do extrativismo, completam o quadro de um projeto de depend\u00eancia que nos afasta a cada dia de qualquer aspira\u00e7\u00e3o emancipat\u00f3ria. O desmonte do Estado mostra sua face cruel e c\u00ednica na crise em que estamos.<\/p>\n<p>Universidades sob interven\u00e7\u00e3o, censura a meios de comunica\u00e7\u00e3o, artistas e fazedores de cultura, e ainda a profus\u00e3o de not\u00edcias e den\u00fancias de torturas e assassinatos de lideran\u00e7as ind\u00edgenas, negras e populares s\u00e3o sintomas di\u00e1rios do avan\u00e7o do autoritarismo e da viol\u00eancia institucional no Brasil.<\/p>\n<p>Mas o mundo \u00e9 mut\u00e1vel, transform\u00e1vel, e esse \u00e9 o tempo que nos coube. Saber quem somos parte de nossa mem\u00f3ria, que estrutura e comp\u00f5e nossa identidade. E a mem\u00f3ria depende, todo o tempo, de fios que fazem uma hist\u00f3ria, uma pequena hist\u00f3ria de cada um, ou a hist\u00f3ria mai\u00fascula de cada povo. Os lugares e os objetos guardam essa capacidade evocadora da mem\u00f3ria, e \u00e9 por isso que precisamos deles para manter viva a nossa identidade.\u00a0 Os relatos que nos transmitem a hist\u00f3ria est\u00e3o ancorados no territ\u00f3rio. A cultura \u00e9 arraigada no territ\u00f3rio, lugar onde os direitos abstratos se concretizam, mas, mais que isso, lugar onde a consci\u00eancia, a reivindica\u00e7\u00e3o e a luta por esses direitos toma forma. E isso n\u00e3o \u00e9 pouca coisa.<\/p>\n<p>\u00c9 nesse contexto que n\u00f3s, arquitetas e arquitetos, somos desafiados a projetar e a construir, a consolidar o papel e a dimens\u00e3o cultural, civilizat\u00f3ria e libert\u00e1ria da Arquitetura.<\/p>\n<p>A mis\u00e9ria, a morte e a destrui\u00e7\u00e3o n\u00e3o podem ser banalizadas. Os cora\u00e7\u00f5es dos jovens n\u00e3o podem sucumbir na desesperan\u00e7a. Temos a obriga\u00e7\u00e3o de debater, propor, denunciar;\u00a0 enfim, essa a\u00e7\u00e3o que nos acompanha a vida toda: lutar.<\/p>\n<p>\u00c9 nesse tempo, de olhos abertos e m\u00e3os estendidas, que o IAB existe e resiste.<\/p>\n<p>Por sorte, n\u00e3o estamos s\u00f3s e n\u00e3o come\u00e7amos hoje. Come\u00e7amos h\u00e1 cem anos, e isso, por si s\u00f3, merece celebra\u00e7\u00e3o. O relato preciso que o presidente Nivaldo fez de nossa hist\u00f3ria converge para o caminho a seguir: a defesa intransigente da democracia, da cultura, da liberdade e da equidade.<\/p>\n<p>As solu\u00e7\u00f5es capazes de enfrentar os desafios de um mundo marcado por imensas desigualdades, mesmo aquelas promovidas pela arquitetura e pelo urbanismo, n\u00e3o ser\u00e3o constru\u00eddas no \u00e2mbito estrito da nossa profiss\u00e3o. Exigem o engajamento do IAB nas grandes quest\u00f5es da vida nacional, de natureza pol\u00edtica, social, econ\u00f4mica e cultural, e que se dar\u00e1 pela atua\u00e7\u00e3o em conjunto com os movimentos e institui\u00e7\u00f5es representativos dos mais diversos setores de nossa sociedade.<\/p>\n<p>Urge construirmos caminhos para promover o acesso \u00e0 arquitetura e ao urbanismo por todos os setores de nossa sociedade, sobretudo pelos mais pobres. Tal esfor\u00e7o vai ao encontro tamb\u00e9m das aspira\u00e7\u00f5es das novas gera\u00e7\u00f5es de arquitetos e arquitetas, para as quais o acesso e a perman\u00eancia na atua\u00e7\u00e3o profissional \u00e9 em si um enorme desafio.<\/p>\n<p>Num momento em que as pol\u00edticas habitacionais e urbanas se orientam ainda mais pelos meios mercantis e financistas, \u00e9 dever de nossas entidades nos unir \u00e0queles que lutam pela habita\u00e7\u00e3o e pela cidade como direito, a fim de construir formas inovadoras de promo\u00e7\u00e3o dessa arquitetura, fundamental para o desenvolvimento social.<\/p>\n<p>Devemos consolidar o F\u00f3rum nacional e os f\u00f3runs estaduais de entidades em defesa do patrim\u00f4nio cultural e o Observat\u00f3rio do Patrim\u00f4nio como frentes de resist\u00eancia \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria, dos modos de vida e da alma do povo brasileiro.<\/p>\n<p>O Congresso UIA2021, em tempos dific\u00edlimos, precisar\u00e1 consolidar formatos, temas e falas inovadoras no debate da arquitetura e do urbanismo que respondam \u00e0s quest\u00f5es mundiais de prote\u00e7\u00e3o ambiental, redu\u00e7\u00e3o da pobreza, justi\u00e7a social, preserva\u00e7\u00e3o das culturas e dos meios de vida dos povos origin\u00e1rios, equidade de g\u00eanero e etnia e defesa dos direitos das popula\u00e7\u00f5es minorizadas..<\/p>\n<p>A participa\u00e7\u00e3o na FPAA construir\u00e1 a interlocu\u00e7\u00e3o com os pa\u00edses do continente, ampliando o conhecimento dos trabalhos, dos desafios e das propostas, por meio dos col\u00f3quios, dos congressos,\u00a0 das bienais, dos concursos e das premia\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>A participa\u00e7\u00e3o no CIALP, buscando os pontos comuns legados pela coloniza\u00e7\u00e3o portuguesa, nos auxiliar\u00e1 a compreender e a superar diferen\u00e7as regionais e culturais,\u00a0 celebrando pelo idioma a arquitetura e as cidades.<br \/>\n\u00c9 necess\u00e1rio que busquemos o di\u00e1logo com os pa\u00edses que enfrentam problemas semelhantes aos nossos, na busca de sa\u00eddas reais e corajosas.<\/p>\n<p>A aproxima\u00e7\u00e3o \u00e0s entidades que defendem a democracia e as liberdades democr\u00e1ticas, publicando posi\u00e7\u00f5es firmes e assertivas, revelam-se o caminho poss\u00edvel para elevar nossa voz contra as arbitrariedades e os desmandos que enfrentamos e enfrentaremos cada vez mais.<\/p>\n<p>A defesa da educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica e gratuita, em especial as universidades e os institutos federais,\u00a0 deve orientar nossas a\u00e7\u00f5es no campo da educa\u00e7\u00e3o em arquitetura e urbanismo, buscando sempre uma forma\u00e7\u00e3o de alta qualidade, o incentivo \u00e0 pesquisa e \u00e0 extens\u00e3o e o compromisso com o papel social de nossa profiss\u00e3o.<\/p>\n<p>Os Congressos Brasileiros de Arquitetos s\u00e3o o momento maior do IAB para a articula\u00e7\u00e3o, interc\u00e2mbio de ideias, di\u00e1logo com diversos setores e destaque \u00e0s quest\u00f5es candentes da produ\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o. Devem refletir as demandas e aspira\u00e7\u00f5es das novas gera\u00e7\u00f5es de arquitetos e arquitetas, de modo a conduzir a profiss\u00e3o e o IAB ante os desafios atuais e futuros.<\/p>\n<p>As Bienais Internacionais trazem para o cen\u00e1rio nacional leituras inovadoras da produ\u00e7\u00e3o da arquitetura e do urbanismo, e complementam nossa compreens\u00e3o da realidade profissional.<\/p>\n<p>Nossa imensa capacidade de trabalho e reflex\u00e3o em nossas inst\u00e2ncias internas &#8211; Departamentos, N\u00facleos, Comiss\u00f5es &#8211; deve ganhar express\u00e3o junto \u00e0 sociedade, ao poder p\u00fablico e, tamb\u00e9m, ao mercado. A a\u00e7\u00e3o coordenada entre elas, articulada a uma estrat\u00e9gia de comunica\u00e7\u00e3o externa, s\u00e3o passos necess\u00e1rios para dar visibilidade e efetividade a esse potencial.<\/p>\n<p>Constituir uma entidade centen\u00e1ria como refer\u00eancia entre os arquitetos e arquitetas, outros profissionais afins \u00e0 \u00e1rea, e \u00e0 sociedade \u00e9 o desafio que devemos assumir em conjunto, entre todos e todas que fazem o IAB nos diferentes n\u00edveis da federa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Por fim, alegra-me ser uma mulher a presidir o Instituto de Arquitetos do Brasil. Espero que, ao lado dessa conquista de todas n\u00f3s, representemos a desconstru\u00e7\u00e3o das manifesta\u00e7\u00f5es patriarcais em todos os seus aspectos no \u00e2mbito da profiss\u00e3o, da sociedade e das institui\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>S\u00f3 a constru\u00e7\u00e3o de um novo olhar, um olhar nosso para n\u00f3s mesmos,, um olhar l\u00facido que se oponha ao culto da fatalidade, que enfrente a explora\u00e7\u00e3o e a especula\u00e7\u00e3o; um olhar que mire o horizonte e nos fa\u00e7a caminhar passo a passo, um olhar que n\u00e3o se desespera, mas age, pode nos conduzir na constru\u00e7\u00e3o de um pa\u00eds justo, solid\u00e1rio, generoso e amoroso.<\/p>\n<p>Agrade\u00e7o profundamente os anos em que pude conviver e aprender com todos voc\u00eas, e agrade\u00e7o aos que, com suas ideias e cr\u00edticas contribu\u00edram para nossas ideias em especial o Departamento de Bahia na pessoa de seu presidente Luiz Ant\u00f4nio e do colega Daniel Colina.<\/p>\n<p>Agrade\u00e7o, mais uma vez, ao Presidente Nivaldo e a toda a Dire\u00e7\u00e3o Nacional, pelo excelente trabalho que nos trouxe at\u00e9 aqui, e chamo meus companheiros de chapa, agora companheiros de gest\u00e3o, para que apresentem suas contribui\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Diretoria Instituto de Arquitetos do Brasil &#8211; IAB <\/p>\n","protected":false},"author":75245,"featured_media":28210,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[40,43],"tags":[],"class_list":["post-10911","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigos","category-editorial"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/veraz.com.br\/iab\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10911","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/veraz.com.br\/iab\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/veraz.com.br\/iab\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/veraz.com.br\/iab\/wp-json\/wp\/v2\/users\/75245"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/veraz.com.br\/iab\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10911"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/veraz.com.br\/iab\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10911\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":28211,"href":"https:\/\/veraz.com.br\/iab\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10911\/revisions\/28211"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/veraz.com.br\/iab\/wp-json\/wp\/v2\/media\/28210"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/veraz.com.br\/iab\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10911"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/veraz.com.br\/iab\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10911"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/veraz.com.br\/iab\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10911"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}