{"id":10811,"date":"2019-05-16T00:00:00","date_gmt":"2019-05-16T03:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/iabrs.org.br\/incendios-teorias-patrimoniais\/"},"modified":"2025-09-22T16:02:07","modified_gmt":"2025-09-22T19:02:07","slug":"incendios-teorias-patrimoniais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/veraz.com.br\/iab\/incendios-teorias-patrimoniais\/","title":{"rendered":"Inc\u00eandios &#038; Teorias Patrimoniais"},"content":{"rendered":"<div style=\"text-align: justify;\">\n\tO lament&aacute;vel e comovente inc&ecirc;ndio na Catedral de Notre-Dame de Paris est&aacute; oportunizando, em escala mundial, uma rica reflex&atilde;o acerca de preven&ccedil;&atilde;o e preserva&ccedil;&atilde;o, passando a incluir a teoria do restauro. E pode ser relacionada com recentes situa&ccedil;&otilde;es nacionais, tamb&eacute;m traum&aacute;ticas.<\/p>\n<p>\tEm Porto Alegre, tivemos em 2013 o quarto inc&ecirc;ndio do Mercado P&uacute;blico, que destruiu metade do segundo pavimento. O restauro, conclu&iacute;do em 2016, optou por valorizar as estruturas remanescentes da edifica&ccedil;&atilde;o ecl&eacute;tica, mantendo sua configura&ccedil;&atilde;o externa e usando t&eacute;cnicas contempor&acirc;neas e materiais incombust&iacute;veis nas substitui&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p>\tNo grande inc&ecirc;ndio do Museu Nacional do Rio de Janeiro de 2018, al&eacute;m do importante edif&iacute;cio hist&oacute;rico neocl&aacute;ssico, foi perdido o maior acervo museol&oacute;gico j&aacute; reunido no Brasil, que abrangia o per&iacute;odo imperial e muitas outras manifesta&ccedil;&otilde;es culturais e cient&iacute;ficas. At&eacute; o momento, no entanto, n&atilde;o foram divulgadas as diretrizes para o projeto de recupera&ccedil;&atilde;o arquitet&ocirc;nica.<\/p>\n<p>\tA catedral de Notre-Dame carrega uma larga hist&oacute;ria de amplia&ccedil;&otilde;es e modifica&ccedil;&otilde;es. Resistiu a saques, revolu&ccedil;&otilde;es e guerras. A obra, iniciada em 1163, foi constru&iacute;da no estilo nacional franc&ecirc;s, o g&oacute;tico, t&iacute;pico da Idade M&eacute;dia. J&aacute; protagonizou uma grande pol&ecirc;mica a partir das obras de Eug&egrave;ne Viollet-le-Duc, conclu&iacute;das em 1864, quando sua fachada foi significativamente alterada, com introdu&ccedil;&atilde;o de novas imagens, das famosas g&aacute;rgulas e instalada a segunda agulha central (la fleche) com estrutura de madeira e cobertura em chumbo, estilo neog&oacute;tico, no local onde esteve a inicial (1250), apoiada nas estruturas de madeira e demolida em 1792 por problemas estruturais. Seu projeto de restauro previa, inclusive a coloca&ccedil;&atilde;o de agulhas semelhantes nas duas torres frontais.&nbsp;<\/p>\n<p>\tA cr&iacute;tica aos crit&eacute;rios de interven&ccedil;&atilde;o adotados por Viollet-le-Duc, considerados como falso-hist&oacute;rico (por imitar &eacute;pocas passadas) e classificados como restauro estil&iacute;stico (por privilegiar um &uacute;nico estilo), contribuiu para o estabelecimento desta &aacute;rea especializada e defini&ccedil;&atilde;o das primeiras teorias do restauro. Logo se sucederam os primeiros movimentos preservacionistas que defendiam a manuten&ccedil;&atilde;o de estruturas originais, consideradas como documentos de &eacute;poca e testemunhos aut&ecirc;nticos. Na Inglaterra, deu lugar &agrave; cria&ccedil;&atilde;o da SPAB (Sociedade para Preserva&ccedil;&atilde;o de Edifica&ccedil;&otilde;es Antigas) por Willian Morris e John Ruskin. No s&eacute;culo XX, tivemos a escola moderna do restauro, na It&aacute;lia, com Camilo Boito e Gustavo Giovanonni e na &Aacute;ustria com Alois Riegl. Da Europa, estes movimentos se espalharam pelo mundo por meio de estruturas org&acirc;nicas como o ICOMOS (Conselho Internacional de Monumentos e S&iacute;tios), que definiu diretrizes nas Cartas Patrimoniais, com teorias e refer&ecirc;ncias t&eacute;cnicas vinculadas &agrave; diferentes situa&ccedil;&otilde;es culturais, registrando a evolu&ccedil;&atilde;o do pensamento conceitual, em cada &eacute;poca.<\/p>\n<p>\tNa mesma semana do inc&ecirc;ndio de Notre-Dame, o primeiro-ministro franc&ecirc;s adiantou o tom que teria sua recupera&ccedil;&atilde;o, anunciando um Concurso Internacional de Arquitetura para &ldquo;reconstruir&rdquo; (a terceira vers&atilde;o) a agulha, &ldquo;adaptada &agrave;s t&eacute;cnicas e desafios de nossos tempos&rdquo;.<\/p>\n<p>\tA iniciativa do concurso colocou o projeto de restauro em outro patamar. Reconheceu o valor universal da catedral e abriu espa&ccedil;o para uma discuss&atilde;o t&eacute;cnica que certamente ampliar&aacute; o conhecimento da trajet&oacute;ria e tect&ocirc;nica da edifica&ccedil;&atilde;o, assim como dos crit&eacute;rios de interven&ccedil;&atilde;o e das t&eacute;cnicas pass&iacute;veis de serem empregadas. Ou seja, uma oportunidade de aprofundar e difundir o que nesta &aacute;rea se denomina &eacute;tica do restauro, maneira como se aborda uma obra desta natureza. Um monumento que teve in&uacute;meros autores e sucessivas modifica&ccedil;&otilde;es ao longo do tempo, e que hoje &eacute; considerada uma contribui&ccedil;&atilde;o humana excepcional, declarada Patrim&ocirc;nio Mundial pela UNESCO.<\/p>\n<p>\tA cidade (e o mundo) j&aacute; havia presenciado, no passado, uma ousada interven&ccedil;&atilde;o contempor&acirc;nea junto a um monumento ic&ocirc;nico, na Pir&acirc;mide do Louvre, encomendada pelo presidente Mitterrand ao arquiteto chin&ecirc;s, Pei, e que gerou acaloradas rea&ccedil;&otilde;es. Certamente a pol&ecirc;mica se estruturar&aacute;, novamente, contrapondo a apressada posi&ccedil;&atilde;o de refazer &ldquo;como era, onde era&rdquo; (qual era?), um crit&eacute;rio que produziu in&uacute;meros falsos hist&oacute;ricos nos per&iacute;odos p&oacute;s-guerras, aos conceitos atuais de restauro, onde, teoricamente, n&atilde;o h&aacute; espa&ccedil;o para reprodu&ccedil;&otilde;es anacr&ocirc;nicas.<\/p>\n<p>\tE a terceira agulha? Depois de muita discuss&atilde;o, esta poder&aacute; ter um redesenho (em tit&acirc;nio ou cristal, multifacetado, a iluminar a catedral). Ou, simplesmente, n&atilde;o ter. Salvo melhor ju&iacute;zo.&nbsp;<\/p><\/div>\n<p>\nLuiz Ant&ocirc;nio Bolcato Cust&oacute;dio<br \/>\nArquiteto do IPHAN.<br \/>\nPorto Alegre abril de 2018<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Luiz Ant\u00f4nio Bolcato Cust\u00f3dio<\/p>\n","protected":false},"author":75245,"featured_media":10812,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[40,43],"tags":[],"class_list":["post-10811","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigos","category-editorial"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/veraz.com.br\/iab\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10811","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/veraz.com.br\/iab\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/veraz.com.br\/iab\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/veraz.com.br\/iab\/wp-json\/wp\/v2\/users\/75245"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/veraz.com.br\/iab\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10811"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/veraz.com.br\/iab\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10811\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":11096,"href":"https:\/\/veraz.com.br\/iab\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10811\/revisions\/11096"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/veraz.com.br\/iab\/wp-json\/wp\/v2\/media\/10812"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/veraz.com.br\/iab\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10811"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/veraz.com.br\/iab\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10811"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/veraz.com.br\/iab\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10811"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}