{"id":10708,"date":"2018-03-27T00:00:00","date_gmt":"2018-03-27T03:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/iabrs.org.br\/todos-matamos-marielle\/"},"modified":"2025-09-22T16:05:41","modified_gmt":"2025-09-22T19:05:41","slug":"todos-matamos-marielle","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/veraz.com.br\/iab\/todos-matamos-marielle\/","title":{"rendered":"Todos matamos Marielle"},"content":{"rendered":"<div style=\"text-align: justify;\">Foram 4 tiros. Feriram de morte Marielle e o motorista que conduzia o ve\u00edculo naquela noite carioca. Disparados por executores a mando de algu\u00e9m. Provavelmente por milicianos que comandam parte significativa do territ\u00f3rio da Regi\u00e3o Metropolitana do Rio de Janeiro. Territ\u00f3rios onde os mais pobres sobrevivem sem acesso a servi\u00e7os p\u00fablicos e direitos b\u00e1sicos que deveriam ser garantidos a todos num Estado Democr\u00e1tico de Direito. Se este ato tem rela\u00e7\u00e3o direta com a Interven\u00e7\u00e3o Militar executada pelo Governo Temer atrav\u00e9s do glorioso Comando Militar do Leste, n\u00e3o sabemos, talvez nunca saibamos. O que sabemos \u00e9 que uma militante dos direitos das pessoas que vivem naqueles territ\u00f3rios segregados e exclu\u00eddos do Poder de Estado (a n\u00e3o ser pela For\u00e7a) foi brutalmente assassinada, sem sequer haver maior preocupa\u00e7\u00e3o em ocultar sua motiva\u00e7\u00e3o, claramente pol\u00edtica.O que legitima tamanha desfa\u00e7atez de seus executores \u00e9 a desconstru\u00e7\u00e3o di\u00e1ria promovida na m\u00eddia, nas redes sociais, nas mesas de bar, nas ruas e pra\u00e7as do conceito de Direitos Humanos. \u00c9 a omiss\u00e3o di\u00e1ria das institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas, da sociedade civil e de amplos setores da imprensa brasileira diante de uma estrat\u00e9gia planejada que viola a pr\u00f3pria compreens\u00e3o social destes Direitos. Ora, tais Direitos foram pela primeira vez constitu\u00eddos na Declara\u00e7\u00e3o Universal de 1948. Proposta liberal, \u00e9 agora atacada por setores pol\u00edticos e sociais que se identificam exatamente como herdeiros desta ideologia. Depreciam o conceito e atacam a\u00e7\u00f5es que promovem os Direitos Humanos para arregimentar uma massa ign\u00f3bil em prol de interesses pol\u00edticos alheios aos princ\u00edpios democr\u00e1ticos e que arrastam o pa\u00eds de volta aos seus tempos mais sombrios da Hist\u00f3ria da Rep\u00fablica.<\/p>\n<p>Utilizaram esta massa para encher as ruas e promover um contexto pol\u00edtico-social capaz de abreviar um projeto pol\u00edtico nacional vencedor por meios alheios ao sufr\u00e1gio universal. Mas o inimigo agora \u00e9 outro. Por mais paradoxal que pare\u00e7a, utilizam novamente a for\u00e7a do conservadorismo de um importante setor da sociedade para abrir espa\u00e7o \u00e0 centro-direita liberal, como \u00fanica alternativa com chances reais de vencer pelas urnas em 2018 o representante mais \u201cleg\u00edtimo\u201d deste conservadorismo.<\/p>\n<p>Todos matamos Marielle. Mais uma negra, mais uma moradora da favela, da periferia. Mais uma ativista que n\u00e3o se calava e disputava os espa\u00e7os pol\u00edticos para tirar tantas outras como ela da invisibilidade. Sua execu\u00e7\u00e3o \u00e9 mais uma dos 70% dos homic\u00eddios que t\u00eam como v\u00edtimas, negros e negras, pobres, claro. Dos autores? Pouco se sabe. A impunidade herdada dos tempos da Ditadura Militar \u00e9 tamb\u00e9m maior quando a v\u00edtima \u00e9 negra e pobre. Confortavelmente, entidades sociais da classe m\u00e9dia se calam. Novamente os dados s\u00e3o omitidos ou distorcidos na \u201cgrande\u201d imprensa nacional que usa apenas os n\u00fameros totais meticulosamente associados a mat\u00e9rias que evidenciam epis\u00f3dios cujas v\u00edtimas s\u00e3o brancos de classe m\u00e9dia a fim de provocar na opini\u00e3o p\u00fablica uma sensa\u00e7\u00e3o de inseguran\u00e7a que legitime a \u201cpol\u00edtica de seguran\u00e7a\u201d a qual amplia ainda mais a viol\u00eancia contra a popula\u00e7\u00e3o negra e pobre. Assim o ciclo vicioso se fecha num moto cont\u00ednuo genocida.<\/p>\n<p>Por outro lado seu assassinato \u00e9 tamb\u00e9m singular e traz consigo outros significados. Trata-se de um ataque \u00e0 democracia e \u00e0s lutas que ela representava e liderava. A repercuss\u00e3o mundial se embasa neste fato, nesta singularidade. Ela representa as milhares de v\u00edtimas civis e militares da viol\u00eancia e contra aqueles que denunciam a seletividade da (in)justi\u00e7a.<\/p>\n<p>Todos matamos Marielle, porque nos calamos, nos omitimos. Salvo raras exce\u00e7\u00f5es, desistimos de disputar, como sociedade, como Estado e como opini\u00e3o p\u00fablica o pr\u00f3prio conceito de Direitos Humanos e sua compreens\u00e3o no senso comum da sociedade brasileira. Assim, predomina no senso comum a ideia do bandido bom \u00e9 bandido morto, e de quem defende a dignidade, e os direitos destes bandidos \u00e9 outro bandido, at\u00e9 pior que aquele, o qual \u201cmerece\u201d ser eliminado com 4 tiros na cara.<\/p>\n<p>Neste momento em que os preceitos mais fundamentais da Democracia e dos Direitos Humanos est\u00e3o amea\u00e7ados de forma somente compar\u00e1vel \u00e0 primeira metade dos anos 1960, \u00e9 necess\u00e1rio que a sociedade civil, atrav\u00e9s daquelas entidades que em momentos nebulosos da hist\u00f3ria recente de nossa Rep\u00fablica levantaram suas vozes contra a viola\u00e7\u00e3o de direitos e ataques a seus defensores reassumam seu papel. J\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 (se um dia houve) espa\u00e7o para a omiss\u00e3o, para panos quentes.<\/p>\n<p>Que Marielle esteja de fato presente, provocando em todos n\u00f3s uma mudan\u00e7a de atitude diante deste quadro. Antes que seja tarde demais, se j\u00e1 n\u00e3o for. Basta de matar Marielle.<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Rafael Passos &#8211; Presidente do IAB RS<\/p>\n","protected":false},"author":75245,"featured_media":28220,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[40,43],"tags":[],"class_list":["post-10708","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigos","category-editorial"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/veraz.com.br\/iab\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10708","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/veraz.com.br\/iab\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/veraz.com.br\/iab\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/veraz.com.br\/iab\/wp-json\/wp\/v2\/users\/75245"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/veraz.com.br\/iab\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10708"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/veraz.com.br\/iab\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10708\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":28373,"href":"https:\/\/veraz.com.br\/iab\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10708\/revisions\/28373"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/veraz.com.br\/iab\/wp-json\/wp\/v2\/media\/28220"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/veraz.com.br\/iab\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10708"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/veraz.com.br\/iab\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10708"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/veraz.com.br\/iab\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10708"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}