{"id":10638,"date":"2017-09-02T00:00:00","date_gmt":"2017-09-02T03:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/iabrs.org.br\/a-ciranda-do-brt\/"},"modified":"2025-09-22T16:02:07","modified_gmt":"2025-09-22T19:02:07","slug":"a-ciranda-do-brt","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/veraz.com.br\/iab\/a-ciranda-do-brt\/","title":{"rendered":"A Ciranda do BRT"},"content":{"rendered":"<div style=\"text-align: justify;\">\n\tEstamos em 2017 e ainda falamos das obras da Copa do Mundo de 2014. Tr&ecirc;s anos se passaram e muitas obras de mobilidade urbana est&atilde;o inacabadas ou nem sairam do papel, como o caso do BRT, por exemplo. Conforme divulgado pelo Jornal do Comercio, o atual prefeito Marchezan Jr. colocar&aacute; a p&aacute; de cal neste projeto que nasceu para n&atilde;o dar certo.<\/p>\n<p>\tPara entendermos como chegamos a este ponto, precisamos voltar um pouco no tempo. L&aacute; em 2010, quando a gest&atilde;o de Foga&ccedil;a-Fortunati assinou a Matriz de Responsabilidade com o Governo Federal assegurando os recursos de R$ 887,9 milh&otilde;es para a capital ga&uacute;cha destinados &agrave;s obras de mobilidade urbana. Tr&ecirc;s meses antes da assinatura do documento, no dia 26 de outubro de 2009, a Prefeitura Municipal de Porto Alegre (PMPA) firma parceria com o setor privado atrav&eacute;s de um Termo de Coopera&ccedil;&atilde;o T&eacute;cnica com o Centro das Ind&uacute;strias do Estado do Rio Grande do Sul (CIERGS).<\/p>\n<p>\tSegundo o Termo de Coopera&ccedil;&atilde;o, foi a iniciativa privada quem procurou a PMPA para se oferecer como parceira &ldquo;no sentido de agilizar a realiza&ccedil;&atilde;o dos projetos considerados priorit&aacute;rios e necess&aacute;rios em termos de sistema vi&aacute;rio e mobilidade urbana do Munic&iacute;pio&rdquo; (PORTO ALEGRE, 2009). Segundo reportagem do Correio do Povo, cabe &agrave; prefeitura planejar e identificar as obras necess&aacute;rias para a copa, e ao CIERGS doar os projetos b&aacute;sicos e executivos. O &ldquo;conv&ecirc;nio viabilizar&aacute; a realiza&ccedil;&atilde;o das licita&ccedil;&otilde;es de cada obra, facilitando a implementa&ccedil;&atilde;o dos projetos, com economia para as finan&ccedil;as municipais, j&aacute; que a prefeitura n&atilde;o investir&aacute; recursos nessa etapa. Segundo o ent&atilde;o secret&aacute;rio extraordin&aacute;rio da Copa, Jos&eacute; Fortunati, o conv&ecirc;nio proporcionar&aacute; maior agilidade&rdquo; (PARCERIA&hellip;, 2009, grifo meu).<\/p>\n<p>\tO Termo, em princ&iacute;pio, propicionou a aus&ecirc;ncia de necessidade de licita&ccedil;&atilde;o &ndash; de fato, se evitou uma etapa do processo legal da administra&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica, al&eacute;m da economia de tempo, representou na &eacute;poca, uma economia de recursos ao munic&iacute;pio, que por tal raz&atilde;o pode optar por mais obras. No entanto, esta suposta agilidade foi perdendo espa&ccedil;o. Conforme o documento firmado, o CIERGS deveria entregar os projetos b&aacute;sicos e executivos dos projetos, por&eacute;m em termo aditivo do Termo de Coopera&ccedil;&atilde;o ficou &ldquo;alterada a reda&ccedil;&atilde;o no seguinte contexto: onde se l&ecirc; projeto(s) b&aacute;sico(s) e executivo (s), leia-se projeto(s) b&aacute;sico (s)&rdquo; (PORTO ALEGRE, 2011).<\/p>\n<p>\tPercebeu-se no decorrer do processo que o conv&ecirc;nio n&atilde;o se mostrou eficiente, e tamb&eacute;m de quem foi realmente a escolha dos projetos, pois os projetos entregues pelo CIERGS dizem respeito apenas &agrave;s obras de mobilidade urbana que priorizam o autom&oacute;vel. Nenhum dos projetos do sistema BRT foi entregue. As obras que foram executadas dizem respeito apenas &agrave; pavimenta&ccedil;&atilde;o e tiveram seus projetos elaborados pela equipe de t&eacute;cnicos da PMPA.<\/p>\n<p>\tO Tribunal de Contas do Estado (TCE) apresentou um documento sobre os andamentos das obras da Matriz de Responsabilidade, que acompanhou at&eacute; julho de 2013. Segundo o jornal Zero Hora, o documento aponta que &ldquo;&lsquo;o atraso generalizado dos projetos e das obras evidencia falhas de planejamento e organiza&ccedil;&atilde;o&rsquo; e registra que o descumprimento de cronogramas favorece o aumento de custos por meio de &lsquo;reajustes de contratos que se perpetuam al&eacute;m dos prazos previstos e em raz&atilde;o do incremento de servi&ccedil;os&rsquo;&rdquo; (MOREIRA, 2013). O TCE aponta, tamb&eacute;m, &ldquo;sobrepre&ccedil;o em dois servi&ccedil;os executados pelos cons&oacute;rcios que venceram a licita&ccedil;&atilde;o &ndash; fresagem e sinaliza&ccedil;&atilde;o&rdquo; (IMPASSE&hellip;, 2013). Os itens estariam 100% e 30% acima do pre&ccedil;o de mercado, respectivamente. O impasse entre PMPA e TCE paralisou as obras nos corredores de &ocirc;nibus.<\/p>\n<p>\tO projeto rodoviarista de Porto Alegre fica evidente ao se comparar a Matriz de Responsabilidade de todas as cidades sede para a Copa do Mundo 2014: Porto Alegre &eacute; a capital que mais investiu em transporte individual (autom&oacute;vel), quando a l&oacute;gica na maioria das cidades &eacute; a de investimento em infraestrutura para o transporte coletivo, conforme os graficos abaixo.<\/p>\n<p>\n\tPara entender melhor o que &eacute; um BRT recorre-se ao manual elaborado pelo Minist&eacute;rios das Cidades (BRASIL, 2008, p. 1), no qual o BRT &ldquo;&eacute; um sistema de transporte de &ocirc;nibus que proporciona mobilidade urbana r&aacute;pida, confort&aacute;vel e com custo eficiente atrav&eacute;s da provis&atilde;o de infraestrutura segregada com prioridade de passagem, opera&ccedil;&atilde;o r&aacute;pida e frequente e excel&ecirc;ncia em marketing e servi&ccedil;o ao usu&aacute;rio&rdquo;. O sistema &ldquo;imita as caracter&iacute;sticas de desempenho e conforto dos modernos sistemas de transporte sobre trilhos, mas com uma fra&ccedil;&atilde;o de custo&rdquo;. A maior velocidade e conforto do BRT seriam poss&iacute;veis gra&ccedil;as a uma combina&ccedil;&atilde;o de fatores, como (1) a utiliza&ccedil;&atilde;o de via &uacute;nica para o &ocirc;nibus, preferencialmente com espa&ccedil;o para ultrapassagem; (2) uma rede de esta&ccedil;&otilde;es altas de embarque e desembarque, que viabilizam a utiliza&ccedil;&atilde;o de um tipo de ve&iacute;culo com motor de r&aacute;pida propuls&atilde;o; (3) ve&iacute;culo biarticulado, com maior capacidade de passageiros; (4) esta&ccedil;&otilde;es fechadas e alinhadas com o n&iacute;vel do &ocirc;nibus, com bilhetagem eletr&ocirc;nica dentro da esta&ccedil;&atilde;o e m&uacute;ltiplas portas para entrada e sa&iacute;da do veiculo; e, por fim, (5) um sistema fechado, similar a um metr&ocirc;, ou seja, o &ocirc;nibus nunca sai do corredor. Esta &eacute; a situa&ccedil;&atilde;o ideal de um sistema de BRT, mas que podem ter varia&ccedil;&otilde;es para se adequar a cada caso.<\/p>\n<p>\tEm Porto Alegre, a implementa&ccedil;&atilde;o do sistema aconteceria pela substitui&ccedil;&atilde;o dos corredores de &ocirc;nibus da Av. Jo&atilde;o Pessoa, Av. Bento Gon&ccedil;alves e Av. Prot&aacute;sio Alves, sem trechos para ultrapassagem. Em Porto Alegre, muitas linhas de &ocirc;nibus saem do corredor para circular no interior dos bairros. Por conta deste fato, o sistema BRT que seria implantado em Porto Alegre era o de esta&ccedil;&atilde;o baixa, o que diminui a pot&ecirc;ncia de arranque do BRT por se tratar de modelo de &ocirc;nibus com motor baixo, de sistema aberto. O escrit&oacute;rio Metr&ocirc;PoA e a Metroplan trabalhavam, entretanto, numa otimiza&ccedil;&atilde;o das linhas para que muitos &ocirc;nibus n&atilde;o circulassem at&eacute; o centro, contribuindo para uma melhor efici&ecirc;ncia do sistema. Por&eacute;m, &eacute; necess&aacute;rio observar que, como a cidade j&aacute; contava com a bilhetagem eletr&ocirc;nica e um sistema de corredores de &ocirc;nibus, esta otimiza&ccedil;&atilde;o poderia ter sido feita independentemente da implanta&ccedil;&atilde;o do sistema BRT. A PMPA ainda buscava na &eacute;poca uma solu&ccedil;&atilde;o para a quest&atilde;o dos &ocirc;nibus da regi&atilde;o metropolitana que v&atilde;o at&eacute; o centro da capital por causa da cobran&ccedil;a de valores da passagem diferentes. Percebe-se a dificuldade da PMPA em dialogar com a Associa&ccedil;&atilde;o das Empresas de Transporte de Passageiros de Porto Alegre (ATP), pois o problema esbarra na cobran&ccedil;a da tarifa das linhas de &ocirc;nibus, e principamente nos interesses do setor privado das empresas de &ocirc;nibus. Ou seja, a cidade n&atilde;o precisa de obras grandes e caras, precisa de vontade pol&iacute;tica para superar as dificuldades enfrentadas junto &agrave;s empresas de &ocirc;nibus que n&atilde;o querem perder a sua fatia no mercado.<\/p>\n<p>\tAssim o BRT nasce para n&atilde;o acontecer. De um lado o setor privado representado pela CIERGS que n&atilde;o doa os projetos, com interesse claro de melhorar a fluidez dos autom&oacute;veis e com isso aumentar as vendas no setor automobil&iacute;stico, e de outro, os interesses igualmente privados das empresas de transporte coletivo na capital.<\/p>\n<p>\tAgora a PMPA liderada por Marchezan Jr. anuncia que o dinheiro ainda dispon&iacute;vel para a realiza&ccedil;&atilde;o das obras do BRT (que at&eacute; hoje n&atilde;o foram disponibilizados pela Caixa Econ&ocirc;mica Federal pela falta de projeto), n&atilde;o ser&aacute; mais disponibilizado para a ideia original do BRT. &Eacute; bem verdade que a ideia original n&atilde;o mudaria muito o sistema, e tamb&eacute;m que o novo projeto idealizado pela equipe de Marchezan prev&ecirc; um BRT para a regi&atilde;o metropolitana, uma vez que a linha do metr&ocirc; nunca saiu do papel. Conforme publicado na mat&eacute;ria do Jornal do Com&eacute;rcio, no &uacute;ltimo dia 8 de agosto, este novo projeto de mobilidade urbana integrado &agrave; Regi&atilde;o Metroplitana envolve a constru&ccedil;&atilde;o do corredor de &ocirc;nibus na Av. Assis Brasil e necessita tanto quanto o antigo projeto de uma tarifa integrada. O or&ccedil;ameno do novo projeto est&aacute; estimado em R$ 1 milh&atilde;o.<\/p>\n<p>\tLembrando que R$ 1 bilh&atilde;o a fundo perdido disponibilizado pelo Minist&eacute;rio das Cidades para a constru&ccedil;&atilde;o do metr&ocirc; foi realmente perdido pela administra&ccedil;&atilde;o muncipal de Fortunati. Para o novo projeto, se estipula o financiamento do Minist&eacute;rio das Cidades, 54% dos recursos destinados ao antigo BRT (afinal a outra parte ser&aacute; para drenagem e tapar buracos, literalmente) e o restante pela participa&ccedil;&atilde;o do setor privado atrav&eacute;s de PPPs. Na mesma mat&eacute;ria do Jornal do Com&eacute;rcio, o secret&aacute;rio municipal de Planejamento e Gest&atilde;o Jos&eacute; Alfredo Parode defende que &ldquo;o modelo de financiamento exclusivo com recursos p&uacute;blicos se esgotou&rdquo; (SANDER, 2017). Lembrando que os 54% dos recursos do BRT, equivalente a R$ 134,36 milh&otilde;es podem ser perdidos, por n&atilde;o se destinarem ao seu projeto de origem.<\/p>\n<p>\tFica evidente o movimento c&iacute;clico: de in&iacute;cio o Estado d&aacute; ao setor privado a capacidade de optar que obras p&uacute;blicas s&atilde;o melhor para a cidade, mas o setor privado opta pelas obras que s&atilde;o melhor para os seus neg&oacute;cios. Esta escolha acarreta na perda de dinheiro p&uacute;blico, que por sua vez, justifica que novamente a l&oacute;gica neoliberal de delegar ao setor privado a resolu&ccedil;&atilde;o dos problemas de natureza p&uacute;blica seja efetivada. O resultado disso tudo, qual ser&aacute;? Afinal, como fica uma PPP de um corredor de &ocirc;nibus? Vai ter ped&aacute;gio para quem pega o BRT? Quais s&atilde;o as contrapartidas para que uma empresa privada tenha interesse em participar de uma constru&ccedil;&atilde;o de BRT? Importante notar que, na mesma semana, o Prefeito Marchezan Jr. assinou o decreto que retira a gratuidade da segunda passagem de &ocirc;nibus e estipula que ela custe 50% da tarifa atual. Mas o BRT n&atilde;o prev&ecirc; integra&ccedil;&atilde;o de tarifas?<\/p>\n<p>\tComo o setor privado n&atilde;o entra numa PPP para ter preju&iacute;zos, possivelmente quem vai pagar a conta somos n&oacute;s, os cidad&atilde;os de Porto Alegre. Lembrando que sempre que os servi&ccedil;os urbanos forem privatizados, os cidad&atilde;os passam a ser tratados como clientes, por&eacute;m sob uma l&oacute;gica na qual n&atilde;o se aplica o jarg&atilde;o de que o cliente sempre tem raz&atilde;o.<\/p>\n<p>\tOs impactos disso ser&atilde;o diversos. Para citar alguns exemplos, (1) quanto menor a qualidade e maior o custo dos servi&ccedil;os de trasporte coletivo, mais pessoas optar&atilde;o, mesmo que contraindo d&iacute;vidas, por comprar um autom&oacute;vel, ou seja, ainda mais carros nas ruas, (2) dificuldade da popula&ccedil;&atilde;o que mora na periferia em conseguir emprego em &aacute;reas centrais ou longe de suas casas, (3) dificuldade do empreendedor em ter mais funcion&aacute;rios, pois ter&atilde;o que gastar mais com transporte, (4) impactos no com&eacute;rcio em geral, pois a pr&aacute;tica do consumo depende da mobilidade das pessoas na cidade, (5) restri&ccedil;&atilde;o do acesso &agrave;s &aacute;reas de lazer nos finais de semana pelas fam&iacute;lias e estudantes. Ou seja, dificuldades de mobilidade n&atilde;o s&oacute; urbana, mas social, que afetar&atilde;o a vida de todos os porto-alegrenses.<\/p><\/div>\n<p>\nClarice Misoczky de Oliveira &eacute; vice-presidente do IAB.<\/p>\n<p>\nREFER&Ecirc;NCIAS<br \/>\nBRASIL. Minist&eacute;rio das Cidades. Manual do BRT Bus Rapid Transit. Guia de Planejamento. Bras&iacute;lia, DF, 2008. Dispon&iacute;vel em<br \/>\n(http:\/\/www.sedhab.df.gov.br\/mapas_sicad\/conferencias\/manual_de_brt.pdf), acesso em 4 set. 2013.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Clarice Misoczky de Oliveira <\/p>\n","protected":false},"author":75245,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[40,43],"tags":[],"class_list":["post-10638","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-artigos","category-editorial"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/veraz.com.br\/iab\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10638","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/veraz.com.br\/iab\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/veraz.com.br\/iab\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/veraz.com.br\/iab\/wp-json\/wp\/v2\/users\/75245"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/veraz.com.br\/iab\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10638"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/veraz.com.br\/iab\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10638\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":11106,"href":"https:\/\/veraz.com.br\/iab\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10638\/revisions\/11106"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/veraz.com.br\/iab\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10638"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/veraz.com.br\/iab\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10638"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/veraz.com.br\/iab\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10638"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}