{"id":10433,"date":"2016-08-18T00:00:00","date_gmt":"2016-08-18T03:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/iabrs.org.br\/a-renovacao-do-conceito-da-arquitetura\/"},"modified":"2025-09-22T16:14:21","modified_gmt":"2025-09-22T19:14:21","slug":"a-renovacao-do-conceito-da-arquitetura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/veraz.com.br\/iab\/a-renovacao-do-conceito-da-arquitetura\/","title":{"rendered":"A renova\u00e7\u00e3o do conceito da arquitetura"},"content":{"rendered":"<div style=\"text-align: justify;\">\n\t<em><strong>Confira trechos do discurso proferido pelo arquiteto Demetrio Ribeiro como paraninfo &agrave; turma 1977\/1 da Faculdade de Arquitetura da UFRGS e publicado no boletim Arquitetura RS, IAB\/RS e SAERGS, Porto Alegre, agosto de 1977:<\/strong><\/em><\/p>\n<p>\tIngressam os integrantes desta turma, como intelectuais organizados em profiss&atilde;o, no processo de elabora&ccedil;&atilde;o da nossa cultura. &Eacute; justo que ou&ccedil;am, neste momento, um depoimento sobre a atua&ccedil;&atilde;o cultural da categoria profissional a que passam a pertencer.<\/p>\n<p>\tA atua&ccedil;&atilde;o dos arquitetos, vista como movimento cultural espec&iacute;fico, tem sua origem na renova&ccedil;&atilde;o do conceito de arquitetura, ocorrida no s&eacute;culo passado. Essa renova&ccedil;&atilde;o de conceitos foi muito mais profunda do que uma inova&ccedil;&atilde;o est&eacute;tica, ou que uma nova conceitua&ccedil;&atilde;o &eacute;tica da profiss&atilde;o. Seu conte&uacute;do tem ra&iacute;zes nos acontecimentos hist&oacute;ricos originados nas revolu&ccedil;&otilde;es francesa e norte-americana.<br \/>\n\t&nbsp;<br \/>\n\tComo todas as express&otilde;es do trabalho e da cultura, a arquitetura integra um sistema social e constitui, ela mesma, um instrumento a mais de consolida&ccedil;&atilde;o desse mesmo sistema e das rela&ccedil;&otilde;es sociais que lhe s&atilde;o pr&oacute;prias.<\/p>\n<p>\tTemplos, castelos, cidades do passado, produtos do trabalho alienado, do trabalho n&atilde;o pertencente ao trabalhador, todos os monumentos &ndash; os da antiguidade, os da nossa Am&eacute;rica &ndash;, as nossas igrejas coloniais e, at&eacute; mesmo, na arquitetura atual, em tudo existe a contradi&ccedil;&atilde;o da for&ccedil;a criativa do homem, posta a servi&ccedil;o de alguma forma de domina&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>\tDomina&ccedil;&atilde;o do homem pelo homem, domina&ccedil;&atilde;o pela imagem; pela imagem da ordem, da for&ccedil;a, do mist&eacute;rio, da riqueza, domina&ccedil;&atilde;o at&eacute; pela imagem da liberdade.<\/p>\n<p>\t&Agrave; medida que, no s&eacute;culo XIX, os sonhos milenares da fraternidade humana come&ccedil;aram a tomar corpo nas lutas do proletariado moderno, &agrave; medida que as utopias come&ccedil;aram a revelar-se poss&iacute;veis &agrave; luz do progresso do conhecimento cient&iacute;fico, germinou na mente humana a id&eacute;ia de um espa&ccedil;o organizado por homens livres e iguais, a id&eacute;ia de uma arquitetura liberta do papel opressor que lhe coubera no passado. Essa id&eacute;ia continuava a de cidades perfeitas, imagin&aacute;rias, que balizou, no decurso dos s&eacute;culos, o planejamento dos fil&oacute;sofos.<\/p>\n<p>\tFoi se formando assim o conceito da arquitetura do nosso tempo. Por vezes interpretado superficialmente como restrito &agrave; forma est&eacute;tica, o conceito de arquitetura nova e, na sua ess&ecirc;ncia, o de uma arquitetura sem falsidade porque sem finalidade mistificadora, livre porque sem objetivo opressor.<\/p>\n<p>\tA contradi&ccedil;&atilde;o entre as leis sociais da competi&ccedil;&atilde;o e do individualismo por um lado, e as aspira&ccedil;&otilde;es de uma arquitetura nova por outro lado, essa contradi&ccedil;&atilde;o modelou o movimento moderno. O conceito evoluiu sob o embate das resist&ecirc;ncias da realidade.<\/p>\n<p>\tA concep&ccedil;&atilde;o de um espa&ccedil;o organizado racionalmente chocou-se com a irracionalidade do processo econ&ocirc;mico.<br \/>\n\tA arquitetura moderna permaneceu afastada das decis&otilde;es fundamentais.<\/p>\n<p>\tNo campo cultural, no entanto, sempre se manteve viva a estreita vincula&ccedil;&atilde;o da arquitetura com as artes visuais, principalmente a pintura. As diferentes correntes art&iacute;sticas que se sucederam neste s&eacute;culo tiveram todas elas alguma influ&ecirc;ncia nas concep&ccedil;&otilde;es est&eacute;ticas da arquitetura moderna.<\/p>\n<p>\tA aud&aacute;cia da inven&ccedil;&atilde;o formal compensou falsamente a estreiteza das possibilidades de a&ccedil;&atilde;o. E isso tanto mais que, afastada de compromissos pr&aacute;ticos, a arquitetura gozava de uma maior liberdade formal.<\/p>\n<p>\tNos &uacute;ltimos dec&ecirc;nios, por&eacute;m, foi dada aos arquitetos de muitos pa&iacute;ses a oportunidade de resolver problemas de cunho social e de enfrentar, assim, a cr&iacute;tica popular que at&eacute; ent&atilde;o&nbsp; lhes fora desconhecida.<\/p>\n<p>\tN&atilde;o mais se confunde com uma corrente est&eacute;tica, e define-se plenamente como uma perspectiva hist&oacute;rica da organiza&ccedil;&atilde;o espacial, com base na produ&ccedil;&atilde;o em massa de habita&ccedil;&otilde;es e equipamentos na reconcilia&ccedil;&atilde;o com a natureza.<\/p>\n<p>\tNo Brasil, o movimento moderno em arquitetura acompanhou desde cedo a evolu&ccedil;&atilde;o das tend&ecirc;ncias europ&eacute;ias. Desde o fim da primeira guerra mundial, como parte de um processo geral de questionamento de valores da sociedade brasileira, definiu-se um movimento de cr&iacute;tica cultural que continha, no seu bojo, os germes de uma atitude moderna, relativamente &agrave; arquitetura.<\/p>\n<p>\tLogo ap&oacute;s a segunda guerra, o nosso pa&iacute;s viveu um per&iacute;odo de grande otimismo pol&iacute;tico e cultural. Ampliaram-se ent&atilde;o os horizontes da arquitetura. Foram fundados cursos de arquitetura em v&aacute;rios pontos do pa&iacute;s, inclusive no Rio Grande do Sul, gra&ccedil;as &agrave; vis&atilde;o e &agrave; coragem de homens da estatura de Tasso Corr&ecirc;a.<\/p>\n<p>\tOrganizados no Instituto de Arquitetos, e agora em sindicatos, t&ecirc;m agido constantemente em defesa de uma arquitetura digna do nosso tempo e do nosso pa&iacute;s. Essa a&ccedil;&atilde;o nada tem a ver com a defesa de uma corrente est&eacute;tica, &eacute; a coloca&ccedil;&atilde;o da perspectiva hist&oacute;rica da arquitetura diante da realidade brasileira.<\/p>\n<p>\tEss&ecirc;ncia dessa realidade reside nos desequil&iacute;brios gerados pela depend&ecirc;ncia externa e pelo atraso pol&iacute;tico, especialmente ao n&iacute;vel do poder.<\/p>\n<p>\tEm primeiro lugar est&atilde;o os desequil&iacute;brios econ&ocirc;micos, a desigualdade e a concentra&ccedil;&atilde;o da renda, em conseq&uuml;&ecirc;ncia das quais grande parte da popula&ccedil;&atilde;o, mesmo urbana, n&atilde;o tem experi&ecirc;ncia vivencial de qualquer forma de arquitetura.<\/p>\n<p>\tNo plano cultural, a subordina&ccedil;&atilde;o econ&ocirc;mica externa gera o colonialismo cultural, a prefer&ecirc;ncia e a imita&ccedil;&atilde;o sistem&aacute;tica do que prov&eacute;m dos pa&iacute;ses centrais, a comercializa&ccedil;&atilde;o da vida art&iacute;stica e a deseduca&ccedil;&atilde;o do povo pelos meios de comunica&ccedil;&atilde;o, a servi&ccedil;o incondicional do lucro.<\/p>\n<p>\tUma arquitetura honesta para homens livres &eacute;, em pa&iacute;ses como o nosso, uma perspectiva de conquistas futuras. Hoje, s&oacute; pode existir ocasional e fragmentariamente. Todos n&oacute;s sabemos disso.<\/p>\n<p>\tN&atilde;o se trata de promo&ccedil;&atilde;o do trabalho profissional simplesmente, e sim da participa&ccedil;&atilde;o dos nossos conhecimentos pr&oacute;prios na solu&ccedil;&atilde;o de problemas pr&aacute;ticos de toda a sociedade: a habita&ccedil;&atilde;o, a cidade, as suas rela&ccedil;&otilde;es com a natureza.<\/p>\n<p>\tN&atilde;o se op&otilde;e ao trabalho profissional, mas, pelo contr&aacute;rio, recebe a sua subst&acirc;ncia da experi&ecirc;ncia haurida&nbsp; na atividade pessoal de cada um.<\/p>\n<p>\tJunto com os profissionais de outras &aacute;reas, com os homens de ensino, com os cientistas e com os artistas, somos levados a ver o processo cultural brasileiro como algo indivis&iacute;vel, insepar&aacute;vel, por sua vez, do processo hist&oacute;rico de desenvolvimento social e pol&iacute;tico do pa&iacute;s.<\/p>\n<p>\tN&atilde;o estamos fora da hist&oacute;ria. Vivemos numa &eacute;poca determinada, com problemas determinados.<\/p>\n<p>\tNossa atitude cultural seria hip&oacute;crita, ou covarde, se ignorasse os rumos da sociedade.<\/p>\n<p>\tSomos parte de uma realidade hist&oacute;rica e n&atilde;o &eacute; por acaso que os Estatutos Sociais do Instituto de Arquitetos contenham o compromisso de zelarmos pelo respeito e pela dignidade dos direitos da pessoa humana.<\/p>\n<p>\t&Eacute; a consci&ecirc;ncia da realidade nacional que fez com que o IX Congresso Brasileiro de Arquitetos, reunido na cidade de S&atilde;o Paulo em outubro passado, proclamasse a sua posi&ccedil;&atilde;o contr&aacute;ria aos dispositivos de exce&ccedil;&atilde;o vigentes.<\/p>\n<p>\tH&aacute; uma solidariedade profunda e indestrut&iacute;vel entre todos os que defendem os direitos do pensamento: profissionais, cientistas, professores e estudantes.<\/p>\n<p>\tEssa solidariedade conquistar&aacute; o caminho do di&aacute;logo e triunfar&aacute; da&nbsp; intoler&acirc;ncia.<br \/>\n\t&nbsp;<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Demetrio Ribeiro<\/p>\n","protected":false},"author":75245,"featured_media":10434,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[40,43],"tags":[],"class_list":["post-10433","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigos","category-editorial"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/veraz.com.br\/iab\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10433","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/veraz.com.br\/iab\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/veraz.com.br\/iab\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/veraz.com.br\/iab\/wp-json\/wp\/v2\/users\/75245"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/veraz.com.br\/iab\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10433"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/veraz.com.br\/iab\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10433\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":11116,"href":"https:\/\/veraz.com.br\/iab\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10433\/revisions\/11116"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/veraz.com.br\/iab\/wp-json\/wp\/v2\/media\/10434"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/veraz.com.br\/iab\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10433"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/veraz.com.br\/iab\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10433"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/veraz.com.br\/iab\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10433"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}