{"id":10419,"date":"2016-08-07T00:00:00","date_gmt":"2016-08-07T03:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/iabrs.org.br\/discurso-de-abertura-do-xii-congresso-brasileiro-de-arquitetos-villanova-artigas\/"},"modified":"2025-09-22T16:14:21","modified_gmt":"2025-09-22T19:14:21","slug":"discurso-de-abertura-do-xii-congresso-brasileiro-de-arquitetos-villanova-artigas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/veraz.com.br\/iab\/discurso-de-abertura-do-xii-congresso-brasileiro-de-arquitetos-villanova-artigas\/","title":{"rendered":"Discurso de abertura do XII Congresso Brasileiro de Arquitetos \u201cVillanova Artigas\u201d"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>Em comemora&ccedil;&atilde;o ao centen&aacute;rio de nascimento do arquiteto e urbanista Demetrio Ribeiro publicamos mais um editorial. Confira o discurso proferido por Demetrio quando foi Presidente de Honra do XII Congresso Brasileiro de Arquitetos, realizado em Belo Horizonte no ano de 1985:<\/strong><\/em><\/p>\n<div style=\"text-align: justify;\">\n\tA generosidade do Conselho Superior do Instituto de Arquitetos indicando-me para a Presid&ecirc;ncia de Honra deste Congresso d&aacute;-me a oportunidade de um breve pronunciamento pessoal, que desejo iniciar ressaltando a homenagem que aqui prestamos &agrave; mem&oacute;ria de Villanova Artigas, homem engajado na vida, no trabalho e nas causas do povo.<br \/>\n\tIntegrado nas lutas revolucion&aacute;rias, Artigas nem por isso subestimou a sua voca&ccedil;&atilde;o profissional. A celebridade tamb&eacute;m n&atilde;o lhe pareceu justificar a omiss&atilde;o pol&iacute;tica.<br \/>\n\tA sua compreens&atilde;o do potencial transformador da Cultura deveria inspirar n&atilde;o somente este Congresso, como toda a a&ccedil;&atilde;o dos arquitetos brasileiros nesta fase da nossa hist&oacute;ria.<br \/>\n\tColegas:<br \/>\n\tTornou-se uma tradi&ccedil;&atilde;o entre n&oacute;s avaliarmos as perspectivas da nossa profiss&atilde;o a partir do quadro nacional.<br \/>\n\tProgressos significativos foram alcan&ccedil;ados por nossas institui&ccedil;&otilde;es pol&iacute;ticas no decurso deste ano.<br \/>\n\tFoi instaurada a plena liberdade de organiza&ccedil;&atilde;o partid&aacute;ria.<br \/>\n\tOs direitos civis s&atilde;o respeitados pelo governo, do qual fazem parte democratas sinceros.<br \/>\n\tApesar disso, tanto o quadro institucional b&aacute;sico como a pol&iacute;tica econ&ocirc;mica permanecem os mesmos e, como sempre acontece quando nos reunimos, perguntamo-nos: o que pode fazer a arquitetura pelo progresso social e cultural num pa&iacute;s como o nosso em que ainda h&aacute; centenas de milhares de fam&iacute;lias sem habita&ccedil;&atilde;o decente, sem alimenta&ccedil;&atilde;o suficiente, sem educa&ccedil;&atilde;o e sem atendimento sanit&aacute;rio?<br \/>\n\tIndependentemente do n&iacute;vel atualmente poss&iacute;vel da nossa participa&ccedil;&atilde;o profissional na produ&ccedil;&atilde;o direta do habitat, creio que temos um papel a desempenhar nesta fase de conquista de uma democracia efetiva para o povo.<br \/>\n\tA obten&ccedil;&atilde;o das mudan&ccedil;as que o novo governo promete, e sem as quais entrar&aacute; fatalmente em retrocesso, exige que a sociedade se organize. O processo de organiza&ccedil;&atilde;o da sociedade implica, por sua vez, a organiza&ccedil;&atilde;o das id&eacute;ias. Da&iacute; que esteja se instalando em todo o pa&iacute;s um grande debate de informa&ccedil;&otilde;es, de cr&iacute;ticas e de propostas, em torno da nossa vida brasileira em todos os seus aspectos.<br \/>\n\tArquitetura &eacute; tamb&eacute;m capacidade de conhecer, de avaliar e de interpretar a realidade do espa&ccedil;o habitado, aspecto fundamental da vida. A esse n&iacute;vel cabe-nos, desde j&aacute;, uma responsabilidade espec&iacute;fica no debate social e na defini&ccedil;&atilde;o das reivindica&ccedil;&otilde;es da coletividade.<br \/>\n\tO governo tem assumido compromissos com a prioridade das necessidades sociais e culturais na orienta&ccedil;&atilde;o das suas atividades.<br \/>\n\tN&atilde;o cabem d&uacute;vidas quanto aos limites pr&aacute;ticos desse prop&oacute;sito numa economia capitalista como a nossa, baseada, por sua pr&oacute;pria ess&ecirc;ncia, no confisco do trabalho para a acumula&ccedil;&atilde;o do capital.<br \/>\n\tTrata-se de uma contradi&ccedil;&atilde;o, evidentemente, mas de uma contradi&ccedil;&atilde;o que pode ser mobilizadora porque sugere medidas emergenciais.<br \/>\n\tSeja como for, o compromisso social do governo tem significa&ccedil;&atilde;o especial para os arquitetos, como profissionais dedicados a prever necessidades sociais e culturais da vida. Por enquanto, por&eacute;m, perduram inalterados os paradoxos da arquitetura brasileira.<br \/>\n\tO Brasil est&aacute; repleto de problemas de arquitetura e de urbanismo a espera de solu&ccedil;&atilde;o. Na maior parte dos casos, quem resolve, mesmo no plano t&eacute;cnico, s&atilde;o leigos desprovidos de qualquer compet&ecirc;ncia espec&iacute;fica. N&atilde;o poucas vezes acobertados por profissionais com capacidade legal para tanto.<br \/>\n\tEnquanto isso acontece, h&aacute; centenas de arquitetos sem trabalho, formados nas quarenta e tantas escolas de arquitetura existentes, muitas delas mantidas com o dinheiro do povo.<br \/>\n\t&Eacute; incontest&aacute;vel o renome mundial da arquitetura brasileira. Os grandes arquitetos brasileiros s&atilde;o conhecidos em todo o mundo. E esse potencial criativo da nossa cultura &eacute;, com raras exce&ccedil;&otilde;es, mantido longe da vida cotidiana da popula&ccedil;&atilde;o trabalhadora.<br \/>\n\tQue podemos fazer n&oacute;s, os arquitetos, para que esse quadro de inconseq&uuml;&ecirc;ncia e de atraso cultural comece, pelo menos, a se modificar?<br \/>\n\tVejo duas linhas simult&acirc;neas de a&ccedil;&atilde;o: a primeira &eacute; a a&ccedil;&atilde;o no plano pol&iacute;tico-cultural, atrav&eacute;s da qual, como grupo profissional n&atilde;o partid&aacute;rio, levarmos a nossa contribui&ccedil;&atilde;o ao desenvolvimento da consci&ecirc;ncia coletiva; a segunda &eacute; a defesa do nosso direito ao trabalho.<br \/>\n\tA pretensa incompatibilidade entre uma e outra coisa s&oacute; pode ser sugerida por um doutrinarismo superficial, pois, na verdade, s&atilde;o lutas complementares e insepar&aacute;veis.<br \/>\n\tNo plano pol&iacute;tico-cultural, o ponto de partida &eacute; assumirmos a nossa profiss&atilde;o como express&atilde;o de direitos culturais do povo, como forma de satisfazer necessidades b&aacute;sicas de toda a popula&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n\tVista politicamente, a socializa&ccedil;&atilde;o da id&eacute;ia de arquitetura cont&eacute;m, necessariamente, a exig&ecirc;ncia de melhores condi&ccedil;&otilde;es de vida coletiva, sendo portanto fator potencial de consci&ecirc;ncia reivindicativa.<br \/>\n\tArquitetura &eacute; o direito ao conforto e &agrave; dignidade da casa e da cidade.<br \/>\n\tEm suma, a meta dos arquitetos, como tais, junto &agrave; sociedade civil h&aacute; de consistir em integrar as aspira&ccedil;&otilde;es de progresso que a arquitetura representa no grande movimento de afirma&ccedil;&atilde;o cultural e pol&iacute;tica em que se engaja o povo brasileiro, hoje.<br \/>\n\tNo plano profissional, sabemos que o exerc&iacute;cio da profiss&atilde;o &eacute; um trabalho, como tal sujeito &agrave; explora&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n\tUma pol&iacute;tica cultural respons&aacute;vel dever&aacute;, necessariamente, zelar pelas condi&ccedil;&otilde;es institucionais do trabalho intelectual.<br \/>\n\tA legisla&ccedil;&atilde;o profissional &eacute; apenas um aspecto desse problema, mas um aspecto significativo, porque atrav&eacute;s dele se projeta socialmente a imagem da profiss&atilde;o.<br \/>\n\tA verdade &eacute; que centenas de prefeitos, milhares de vereadores, empres&aacute;rios, jornalistas, professores, estudantes e respons&aacute;veis da gest&atilde;o p&uacute;blica e privada, pelo Brasil afora, tem da arquitetura a no&ccedil;&atilde;o veiculada pela lei vigente e pelo Conselho Federal de Engenharia e Arquitetura, ou seja, a no&ccedil;&atilde;o de uma profiss&atilde;o sup&eacute;rflua, sem &aacute;rea privativa de responsabilidade, subsidi&aacute;ria de luxo da engenharia civil.<br \/>\n\tEssa falsa concep&ccedil;&atilde;o, consagrada na lei atual, condena a arquitetura ao elitismo, entravando a sua expans&atilde;o natural e restringindo artificialmente o nosso campo de a&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n\tEssa desinforma&ccedil;&atilde;o oficializada prejudica, sobretudo, a cultura do povo, perpetuando preconceitos tecnicistas e escamoteando a responsabilidade social, econ&ocirc;mica e cultural de quem projeta e organiza o espa&ccedil;o, isso em benef&iacute;cio da especula&ccedil;&atilde;o e da explora&ccedil;&atilde;o do trabalho t&eacute;cnico.<br \/>\n\tMais uma vez confirma-se a necessidade de a lei proteger, efetivamente, o trabalhador intelectual como qualquer outro trabalhador.<br \/>\n\tTem sido, a meu ver, um erro de percep&ccedil;&atilde;o restringirmos a nossa a&ccedil;&atilde;o a esse respeito ao &acirc;mbito fechado das negocia&ccedil;&otilde;es corporativas.<br \/>\n\tNa verdade, trata-se de um problema de interesse p&uacute;blico. Um problema dos respons&aacute;veis pela cultura, pelo desenvolvimento urbano e pelo meio-ambiente. Um problema para os legisladores, para a imprensa brasileira e para toda a popula&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n\tComo todas as mudan&ccedil;as legais de que o Brasil precisa, as desse campo dependem da press&atilde;o da opini&atilde;o p&uacute;blica competente, devidamente informada.<br \/>\n\tColegas,<br \/>\n\tEste Congresso poder&aacute; ser um marco na participa&ccedil;&atilde;o dos arquitetos no progresso do pa&iacute;s, desde que nele prevale&ccedil;a o prop&oacute;sito de falar claramente &agrave; opini&atilde;o p&uacute;blica, aos legisladores e governantes.<br \/>\n\tProclamando publicamente o direito que o povo brasileiro tem de ver tratados os problemas habitacionais e urbanos de forma respons&aacute;vel e abrangente, utilizando-se todos os recursos humanos existentes, entre os quais devemos ocupar o nosso lugar.<br \/>\n\tSeja qual for o n&iacute;vel que este Congresso vier a atingir, ser&aacute; uma etapa dum longo processo.<br \/>\n\tPara o prosseguimento desse processo dispomos de um n&iacute;vel de organiza&ccedil;&atilde;o que se destaca no panorama gremial brasileiro.<br \/>\n\tUma entidade de bases nacionais s&oacute;lidas, independente dos poderes p&uacute;blicos, dos partidos pol&iacute;ticos e das for&ccedil;as empresariais, constru&iacute;da democraticamente, como &eacute; o Instituto de Arquitetos do Brasil, assegura a nossa presen&ccedil;a em todas as inst&acirc;ncias do debate nacional.<br \/>\n\tEm torno dele h&atilde;o de congregar-se, como tamb&eacute;m em torno dos sindicatos, todos os arquitetos dispostos a levar avante a luta pela nossa participa&ccedil;&atilde;o no progresso do pa&iacute;s.<br \/>\n\tObrigado.<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Demetrio Ribeiro<\/p>\n","protected":false},"author":75245,"featured_media":10420,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[40,43],"tags":[],"class_list":["post-10419","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigos","category-editorial"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/veraz.com.br\/iab\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10419","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/veraz.com.br\/iab\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/veraz.com.br\/iab\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/veraz.com.br\/iab\/wp-json\/wp\/v2\/users\/75245"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/veraz.com.br\/iab\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10419"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/veraz.com.br\/iab\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10419\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":11117,"href":"https:\/\/veraz.com.br\/iab\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10419\/revisions\/11117"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/veraz.com.br\/iab\/wp-json\/wp\/v2\/media\/10420"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/veraz.com.br\/iab\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10419"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/veraz.com.br\/iab\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10419"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/veraz.com.br\/iab\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10419"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}