{"id":10318,"date":"2014-01-28T00:00:00","date_gmt":"2014-01-28T02:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/iabrs.org.br\/democracia-simulada-e-o-sequestro-da-participacao-4583\/"},"modified":"2025-09-22T16:14:40","modified_gmt":"2025-09-22T19:14:40","slug":"democracia-simulada-e-o-sequestro-da-participacao-4583","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/veraz.com.br\/iab\/democracia-simulada-e-o-sequestro-da-participacao-4583\/","title":{"rendered":"Democracia simulada e o sequestro da participa\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>A cidade de Porto Alegre &eacute; pioneira em planejamento urbano no Brasil, tendo elaborado o primeiro Plano Diretor da hist&oacute;ria das cidades brasileiras e conta com uma longa tradi&ccedil;&atilde;o de planos e projetos urbanos desde o in&iacute;cio do s&eacute;culo passado. A partir dos anos 90 a implanta&ccedil;&atilde;o tamb&eacute;m pioneira e exitosa do Or&ccedil;amento Participativo &ndash; OP &ndash; projetou internacionalmente esta caracter&iacute;stica da cidade que, certamente, influenciou para que o F&oacute;rum Social Mundial fosse realizado em Porto Alegre ampliando o reconhecimento internacional &agrave;s nossas iniciativas de vanguarda pol&iacute;tica e administrativa.<br \/>\nEntretanto, estas pol&iacute;ticas p&uacute;blicas foram sendo gradativamente distorcidas ou abandonadas e o que assistimos hoje &eacute; a destrui&ccedil;&atilde;o do sistema de planejamento e da pol&iacute;tica descrita nos cap&iacute;tulos iniciais do Plano Diretor de Desenvolvimento Urbanos e Ambiental &ndash; PDDUA &ndash; em vigor, que visa(va) claramente equilibrar o planejamento da cidade entre crit&eacute;rios t&eacute;cnicos e a participa&ccedil;&atilde;o efetiva da comunidade visando a constru&ccedil;&atilde;o de uma cidade mais justa e democr&aacute;tica.<\/p>\n<p>O que temos hoje &eacute; um Plano Diretor completamente contradit&oacute;rio entre seus princ&iacute;pios e objetivos e seus verdadeiros resultados. O maior problema &eacute; a falta de um Projeto de Cidade pactuado entre todos os cidad&atilde;os, uma vis&atilde;o de futuro, a defini&ccedil;&atilde;o de um cen&aacute;rio de como ser&aacute; nossa cidade daqui a 10 ou 20 anos. O Plano Diretor at&eacute; esbo&ccedil;a este Projeto de Cidade em seus cap&iacute;tulos iniciais, mas as administra&ccedil;&otilde;es municipais parecem n&atilde;o ter for&ccedil;a, ou interesse, em efetiv&aacute;-lo. A constru&ccedil;&atilde;o da cidade acaba sendo realizada de maneira totalmente fragmentada, sem uma vis&atilde;o global e um rumo definido, sem integra&ccedil;&atilde;o entre os planos e projetos e, pior de tudo, gravemente influenciada pelos interesses de alguns grupos que aprovam como querem, sem discuss&atilde;o p&uacute;blica, seus &ldquo;projetos especiais&rdquo; em &aacute;reas estrat&eacute;gicas para a cidade, geralmente com a colabora&ccedil;&atilde;o ou a coniv&ecirc;ncia de alguns representantes do poder p&uacute;blico.<\/p>\n<p>Todas as grandes cidades passaram a sofrer com maior intensidade o ass&eacute;dio dos grandes grupos econ&ocirc;micos que transferiram suas a&ccedil;&otilde;es especulativas para o espa&ccedil;o urbano e imobili&aacute;rio, caracterizando-os hoje como um bem especulativo que substituiu outros investimentos tradicionais. A crise internacional foi resultado, fundamentalmente, de uma bolha imobili&aacute;ria especulativa. Esta nova l&oacute;gica obriga os agentes da especula&ccedil;&atilde;o, que antes exerciam uma macro influ&ecirc;ncia apenas junto a governantes e empres&aacute;rios, agora tenham que agir &ldquo;por dentro&rdquo; das estruturas municipais criadas para o planejamento participativo e a gest&atilde;o da cidade.<\/p>\n<p>Em Porto Alegre, o que assistimos &eacute; o sequestro destes ambientes participativos pelos grupos que se beneficiam com a especula&ccedil;&atilde;o e por seus aliados de ocasi&atilde;o. O Conselho Municipal de Desenvolvimento Urbano e Ambiental &ndash; CMDUA, que tem a compet&ecirc;ncia legal de &ldquo;formular pol&iacute;ticas, planos, programas e projetos de desenvolvimento urbano&rdquo;, est&aacute; amplamente dominado por estes interesses espec&iacute;ficos e altamente parciais na l&oacute;gica urbana, privilegiando os grandes grupos econ&ocirc;micos &ndash; imobili&aacute;rios, obras vi&aacute;rias e comerciais &ndash; que tem no lucro sua maior motiva&ccedil;&atilde;o pela cidade. Apesar de que sejam interesses leg&iacute;timos de uma parcela importante da economia de uma cidade, estes interesses nunca podem ser hegem&ocirc;nicos porque, claramente, n&atilde;o est&atilde;o a servi&ccedil;o de toda a sociedade e sim buscam apenas o benef&iacute;cio de seus propriet&aacute;rios e acionistas.<\/p>\n<p>O Conselho Municipal de Desenvolvimento Urbano Ambiental &ndash; CMDUA &ndash; est&aacute; previsto no Plano Diretor de Porto Alegre &ndash; PDDUA &ndash; e seu funcionamento est&aacute; regido pelo Decreto n&ordm; 16.836, de 25 de outubro de 2010. O CMDUA &eacute; o &ldquo;&oacute;rg&atilde;o de integra&ccedil;&atilde;o&rdquo; do Sistema Municipal de Gest&atilde;o e Planejamento e tem como sua principal atribui&ccedil;&atilde;o &ldquo;zelar pela aplica&ccedil;&atilde;o da legisla&ccedil;&atilde;o municipal relativa ao planejamento e desenvolvimento urbano ambiental, propor e opinar sobre a atualiza&ccedil;&atilde;o, complementa&ccedil;&atilde;o, ajustes e altera&ccedil;&otilde;es do PDDUA&rdquo;, al&eacute;m de diversas outras atribui&ccedil;&otilde;es como aprovar &ldquo;projetos especiais&rdquo;, tratar dos temas referentes ao &ldquo;solo criado&rdquo; entre outros. &Eacute;, portanto, um espa&ccedil;o muito importante pelo qual passam decis&otilde;es fundamentais para o futuro da cidade.<\/p>\n<p>O CMDUA &eacute; presidido pelo titular da Secretaria do Planejamento Municipal, extinta em 2013, mas substitu&iacute;da pela Secretaria Municipal de Urbanismo &ndash; SMURB &ndash; e &eacute; composto por mais 27 conselheiros e seus suplentes, com mandato de dois anos, na seguinte propor&ccedil;&atilde;o: 9 representam a comunidade; 9 representam entidades n&atilde;o-governamentais ; e 9 representam &oacute;rg&atilde;os p&uacute;blicos.<\/p>\n<p>A escolha destes se d&aacute; de forma diferenciada para cada uma destas categorias. Das 9 representa&ccedil;&otilde;es da comunidade, oito s&atilde;o eleitas diretamente em plen&aacute;rias convocadas em cada uma das oito regi&otilde;es de planejamento e mais uma em reuni&atilde;o plen&aacute;ria espec&iacute;fica do OP. Pelo regulamento, estas plen&aacute;rias s&atilde;o abertas mas exigem inscri&ccedil;&otilde;es pr&eacute;vias dos moradores. As 9 representa&ccedil;&otilde;es de &oacute;rg&atilde;os p&uacute;blicos, sete s&atilde;o indicados diretamente pelo Prefeito Municipal representando as secretarias de governo (SPM\/SMURB, EPTC, DEMHAB, SMAM, GP, Gest&atilde;o e SMOV); a Metroplan representa o Governo do Estado e a UFRGS a esfera federal. As 9 representa&ccedil;&otilde;es das entidades n&atilde;o governamentais s&atilde;o escolhidas por meio de uma elei&ccedil;&atilde;o na qual podem votar entidades pr&eacute; cadastradas conforme crit&eacute;rios que as classificam como &ldquo;entidades de classe e afins ao planejamento urbano&rdquo;, &ldquo;entidades empresariais, preferencialmente da &aacute;rea da constru&ccedil;&atilde;o civil&rdquo; e &ldquo;entidades ambientais e institui&ccedil;&otilde;es cient&iacute;ficas&rdquo;. Os crit&eacute;rios de cadastramento das entidades &ldquo;afins ao planejamento urbano&rdquo; s&atilde;o absolutamente amplos e vagos e j&aacute; permitiu, por exemplo, que uma associa&ccedil;&atilde;o de propriet&aacute;rios de im&oacute;veis no estado de Santa Catarina votasse e, na &uacute;ltima elei&ccedil;&atilde;o, um Sindicato de Transportadores Rodovi&aacute;rios de Valores. O que estes t&ecirc;m &ldquo;afim ao planejamento urbano&rdquo; de Porto Alegre &eacute; uma inc&oacute;gnita. Este &eacute; o ponto. Com as regras em vigor, qualquer entidade de classe ou sindicato passou a ser &ldquo;afim ao planejamento urbano&rdquo; o que esvaziou de conte&uacute;do estas representa&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p>O PDDUA exige, em seu artigo 40, que as representa&ccedil;&otilde;es das entidades n&atilde;o&ndash;governamentais sejam &ldquo;alteradas em tr&ecirc;s f&oacute;runs espec&iacute;ficos a serem realizados por ocasi&atilde;o das Confer&ecirc;ncias Municipais do Plano Diretor&rdquo;, previstas no mesmo Plano, mas nunca realizadas com este fim. A atual forma de escolha e elei&ccedil;&atilde;o para o CMDUA &eacute;, portanto, realizada em discord&acirc;ncia com o que rege o Plano Diretor e, muito pior, baseado em um regulamento interno elaborado pelo pr&oacute;prio CMDUA no qual a maioria ali existente construiu regras para excluir a minoria e a diversidade, impedindo a proporcionalidade na elei&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Esta manobra excluiu do CMDUA a representa&ccedil;&atilde;o de entidades que s&atilde;o tradicionais defensoras de um projeto integrado equilibrado para a cidade, cr&iacute;ticas dos mega empreendimentos e aliadas das comunidades, como o IAB, os sindicatos de profissionais t&eacute;cnicos (arquitetos, engenheiros, soci&oacute;logos e outros) e as associa&ccedil;&otilde;es ambientais. Ou seja, temos hoje uma composi&ccedil;&atilde;o do CMDUA que n&atilde;o representa a diversidade de opini&otilde;es e vis&otilde;es sobre a cidade.<\/p>\n<p>Por exemplo, uma institui&ccedil;&atilde;o como a OAB, com longo hist&oacute;rico de defesa da sociedade, tem seus representantes no CMDUA alinhados com os interesses da especula&ccedil;&atilde;o imobili&aacute;ria, e s&atilde;o seus defensores naquele f&oacute;rum. Por outro lado, os indicados pela Prefeitura Municipal, que s&atilde;o t&eacute;cnicos das diversas secretarias, n&atilde;o tem nenhuma autonomia para a sua atua&ccedil;&atilde;o t&eacute;cnica e s&atilde;o obrigados a votarem em bloco segundo crit&eacute;rios pol&iacute;ticos de seus superiores, sob pena de serem imediatamente substitu&iacute;dos.<\/p>\n<p>Desta maneira, os grandes empreendimentos imobili&aacute;rios, novos shoppings, grandes obras vi&aacute;rias e outros projetos de interesse dos grandes grupos econ&ocirc;micos s&atilde;o superficialmente analisados por este Conselho, muitas vezes atropelando crit&eacute;rios t&eacute;cnicos e legais, simulando um ambiente democr&aacute;tico no qual, em realidade, o jogo j&aacute; est&aacute; jogado. Estes grupos j&aacute; sequestraram v&aacute;rios conselhos municipais e atuam profissionalmente contando, geralmente, com a coniv&ecirc;ncia de alguns agentes p&uacute;blicos, dos quais s&atilde;o seus principais patrocinadores eleitorais. Esta situa&ccedil;&atilde;o gera um ambiente no qual a democracia est&aacute; falseada e a real representa&ccedil;&atilde;o da sociedade totalmente distorcida atrav&eacute;s de ardis e manobras conhecidas da velha pol&iacute;tica.<\/p>\n<p>Nossos bons exemplos de cidade, que sempre foram as distantes Paris, Barcelona ou Copenhague, agora s&atilde;o representadas por realidades culturais e socioecon&ocirc;micas bem mais pr&oacute;ximas da nossa como Ros&aacute;rio, na Argentina ou Medellin e Bogot&aacute;, na Col&ocirc;mbia. Estas cidades tem se destacado exatamente por haverem revisado as suas prioridades e estarem focando seu desenvolvimento nas pessoas. Aqui seguimos priorizando o autom&oacute;vel privado, o asfalto, os shoppings, os condom&iacute;nios fechados, os espig&otilde;es e ainda sofremos com a falta de uma pol&iacute;tica urbana decente, com o abandono dos espa&ccedil;os p&uacute;blicos, ou sua privatiza&ccedil;&atilde;o, com o descaso com os direitos das comunidades, com a absoluta falta de planejamento e a total inexist&ecirc;ncia de espa&ccedil;os democr&aacute;ticos de discuss&atilde;o sobre o futuro da cidade.<\/p>\n<p>A realidade da &ldquo;gest&atilde;o participativa&rdquo; em Porto Alegre contraria frontalmente os melhores conceitos contempor&acirc;neos de urbanidade. Longe de ser um &ldquo;choro de perdedor&rdquo;, a exclus&atilde;o da representa&ccedil;&atilde;o no CMDUA do IAB e de outras entidades representa, por um lado, a desqualifica&ccedil;&atilde;o t&eacute;cnica do mesmo e, por outro, a exclus&atilde;o de entidades que historicamente lutam pelos interesses coletivos da sociedade, pelo patrim&ocirc;nio cultural, pelo meio ambiente, pelo planejamento, pela qualidade dos espa&ccedil;os p&uacute;blicos, pela diversidade, pelas pessoas.<\/p>\n<p>O IAB, em contraposi&ccedil;&atilde;o &agrave; esta simula&ccedil;&atilde;o da democracia e o sequestro da participa&ccedil;&atilde;o prop&otilde;e que sejam constitu&iacute;dos espa&ccedil;os efetivos de discuss&atilde;o e de elabora&ccedil;&atilde;o de um Projeto de Cidade no qual todos os grupos tenham condi&ccedil;&otilde;es de colocar abertamente e em igualdade de condi&ccedil;&otilde;es os seus interesses e o seu modelo ideal de cidade para, no enfrentamento democr&aacute;tico e transparente dos conflitos, buscar os consensos e pactos que garantam um Projeto de Cidade compartilhado por todos.<\/p>\n<p>Nesta l&oacute;gica, o papel do poder p&uacute;blico dever&aacute; ser alterado radicalmente, deixando de atuar como uma parte interessada e assumindo seu verdadeiro papel de mediador destes diversos interesses e de promo&ccedil;&atilde;o do desenvolvimento equilibrado, sustent&aacute;vel e mais justo para toda a sociedade.<\/p>\n<p>\nTiago Holzmann da Silva &eacute; presidente do IAB\/RS<\/p>\n<p>Publicado originalmente no Jornal Sul21<br \/>\n<a href=\"http:\/\/www.sul21.com.br\/jornal\/democracia-simulada-e-o-sequestro-da-participacao-por-tiago-holzmann-da-silva\/\">http:\/\/www.sul21.com.br\/jornal\/democracia-simulada-e-o-sequestro-da-participacao-por-tiago-holzmann-da-silva\/<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>IAB RS &#8211; Sul21 <\/p>\n","protected":false},"author":75245,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[40,43],"tags":[],"class_list":["post-10318","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-artigos","category-editorial"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/veraz.com.br\/iab\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10318","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/veraz.com.br\/iab\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/veraz.com.br\/iab\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/veraz.com.br\/iab\/wp-json\/wp\/v2\/users\/75245"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/veraz.com.br\/iab\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10318"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/veraz.com.br\/iab\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10318\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":11137,"href":"https:\/\/veraz.com.br\/iab\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10318\/revisions\/11137"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/veraz.com.br\/iab\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10318"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/veraz.com.br\/iab\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10318"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/veraz.com.br\/iab\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10318"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}