{"id":10146,"date":"2015-06-03T00:00:00","date_gmt":"2015-06-03T03:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/iabrs.org.br\/habitacao-em-questao\/"},"modified":"2025-09-22T16:14:40","modified_gmt":"2025-09-22T19:14:40","slug":"habitacao-em-questao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/veraz.com.br\/iab\/habitacao-em-questao\/","title":{"rendered":"Habita\u00e7\u00e3o em Quest\u00e3o"},"content":{"rendered":"<div style=\"text-align: justify;\">\n\t<strong>Habita&ccedil;&atilde;o em Quest&atilde;o<\/strong><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">\n\t<br \/>\n\tDiante de mat&eacute;ria, publicada na edi&ccedil;&atilde;o do &uacute;ltimo dia 31 de maio do jornal Zero Hora, intitulada &ldquo;Porto Alegre Cidade Ocupada&rdquo;, vemo-nos no compromisso de colaborar para uma leitura mais ampla do contexto que coloca comunidades inteiras a merc&ecirc; de pr&aacute;ticas conden&aacute;veis, devidamente denunciadas, como a venda de lotes irregulares no interior de recentes ocupa&ccedil;&otilde;es na cidade de Porto Alegre, supostamente praticadas por lideran&ccedil;as comunit&aacute;rias com apoio de profissionais da &aacute;rea do Direito.<\/p>\n<p>\tA ocupa&ccedil;&atilde;o informal de &aacute;reas urbanas &eacute; pr&aacute;tica social que tem sua origem na hist&oacute;rica desigualdade de acesso &agrave; propriedade e &agrave; cidade e, obviamente, n&atilde;o &eacute; exclusividade da cidade de Porto Alegre, tampouco das ocupa&ccedil;&otilde;es citadas na mat&eacute;ria. Seu agravamento durante o s&eacute;culo XX deve-se tanto &agrave; l&oacute;gica mercantil do desenvolvimento urbano brasileiro, que negou durante o &uacute;ltimo s&eacute;culo a moradia como direito. Este contexto promoveu o avan&ccedil;o de um mercado informal de solo e moradia urbana o qual apresenta uma l&oacute;gica pr&oacute;pria, estudada a exaust&atilde;o por profissionais de diversas &aacute;reas.<\/p>\n<p>\tUma significativa parte das ocupa&ccedil;&otilde;es informais na hist&oacute;ria de Porto Alegre tem sua origem em loteamentos irregulares ou clandestinos promovidos por empreendedores privados e grandes propriet&aacute;rios de terra. Neste sentido, cabe perguntar-nos por que a mat&eacute;ria n&atilde;o procurou investigar o hist&oacute;rico das propriedades ocupadas, a fim de verificar eventuais irregularidades de escala maior do que as denunciadas na mat&eacute;ria?<\/p>\n<p>\tPa&iacute;ses como Holanda e Inglaterra t&ecirc;m legisla&ccedil;&atilde;o de direito &agrave; moradia que remontam h&aacute; mais de um s&eacute;culo. Somente depois da Constitui&ccedil;&atilde;o de 1988, e com a institui&ccedil;&atilde;o do Estatuto da Cidade, Lei Federal 10.257 de 2001, o Brasil passa a contar com um marco legal que estabelece a fun&ccedil;&atilde;o social da propriedade e o direito &agrave; moradia (Emenda Constitucional n&ordm; 26 de 2000).<\/p>\n<p>\tConforme o Estatuto da Cidade, uma propriedade urbana cumpre sua fun&ccedil;&atilde;o social quando &ldquo;atende &agrave;s exig&ecirc;ncias fundamentais de ordena&ccedil;&atilde;o da cidade expressas no plano diretor, assegurando o atendimento das necessidades dos cidad&atilde;os quanto &agrave; qualidade de vida, &agrave; justi&ccedil;a social e ao desenvolvimento das atividades econ&ocirc;micas&rdquo; . Ora, vazios urbanos providos de infraestrutura e servi&ccedil;os p&uacute;blicos certamente n&atilde;o est&atilde;o cumprindo sua fun&ccedil;&atilde;o social, pelo contr&aacute;rio, representam tanto um preju&iacute;zo &agrave;s contas p&uacute;blicas municipais, quanto um perigo &agrave; comunidade, pois s&atilde;o lugares propensos &agrave; criminalidade e viol&ecirc;ncia. Sua exist&ecirc;ncia s&oacute; parece ser justificada pela pr&aacute;tica danosa da especula&ccedil;&atilde;o imobili&aacute;ria.<\/p>\n<p>\tO Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano Ambiental (PDDUA) prev&ecirc;, desde 1999, a institui&ccedil;&atilde;o das &Aacute;reas Especiais de Interesse Social (AEIS), tamb&eacute;m previsto no Estatuto da Cidade. As AEIS s&atilde;o instrumentos &uacute;teis tanto para a regulariza&ccedil;&atilde;o de ocupa&ccedil;&otilde;es e loteamentos informais, quanto para a produ&ccedil;&atilde;o de novas unidades habitacionais, devendo o poder p&uacute;blico identificar os vazios urbanos pass&iacute;veis de implanta&ccedil;&atilde;o de moradias em solo urbanizado.<\/p>\n<p>\tO Plano Diretor &eacute; lei b&aacute;sica da pol&iacute;tica de desenvolvimento urbano, e segundo o Estatuto da Cidade, tanto o plano plurianual, quanto as diretrizes or&ccedil;ament&aacute;rias e or&ccedil;amento anual devem seguir suas diretrizes. Este &eacute; o tamanho que ele deveria ter no arcabou&ccedil;o jur&iacute;dico-institucional das cidades brasileiras. A realidade, no entanto, n&atilde;o &eacute; bem assim, pois do poder p&uacute;blico municipal n&atilde;o tem sido exigida a aplica&ccedil;&atilde;o de v&aacute;rios de seus dispositivos legais, sobretudo quanto ao direito &agrave; moradia e &agrave; fun&ccedil;&atilde;o social da propriedade, em flagrante neglig&ecirc;ncia dos poderes constitu&iacute;dos na manuten&ccedil;&atilde;o do Estado Democr&aacute;tico de Direito.<\/p>\n<p>\tO PDDUA demanda ao Executivo municipal a delimita&ccedil;&atilde;o de &aacute;reas destinadas &agrave; produ&ccedil;&atilde;o de Habita&ccedil;&atilde;o de Interesse Social pela institui&ccedil;&atilde;o de AEIS, &ldquo;considerando o d&eacute;ficit anual da demanda habitacional priorit&aacute;ria e os im&oacute;veis subutilizados&rdquo; . A &uacute;ltima delimita&ccedil;&atilde;o de AEIS para este fim foi no ano de 2010, e a maioria dos projetos tanto p&uacute;blicos quanto de cooperativas habitacionais (via Minha Casa Minha Vida Entidades) est&atilde;o travados em tr&acirc;mites administrativos.<\/p>\n<p>\tA pr&oacute;pria mat&eacute;ria cita dados do Departamento Municipal de Habita&ccedil;&atilde;o (DEMHAB) os quais apontam que em 2009 cerca de 20% da popula&ccedil;&atilde;o habita &ldquo;&aacute;reas invadidas&rdquo;, e que n&atilde;o existem dados atualizados, evidenciando o desinteresse com que &eacute; tratada a quest&atilde;o. O DEMHAB, como outros setores t&eacute;cnicos que tratam do desenvolvimento urbano e habita&ccedil;&atilde;o tem sofrido um desmonte de suas condi&ccedil;&otilde;es t&eacute;cnico-administrativas.<\/p>\n<p>\tOutro instrumento do PDDUA negligenciado &eacute; o que prev&ecirc; a demarca&ccedil;&atilde;o das &Aacute;reas de Ocupa&ccedil;&atilde;o Urbana Priorit&aacute;ria, em cujos vazios devem ser aplicados o seu parcelamento, edifica&ccedil;&atilde;o e utiliza&ccedil;&atilde;o compuls&oacute;rios, com prioridade para a produ&ccedil;&atilde;o habitacional social. Deveria ser ainda aplicado sobre estas propriedades, o IPTU progressivo no tempo.<\/p>\n<p>\tDiante deste quadro de inaplicabilidade das exig&ecirc;ncias legais, a popula&ccedil;&atilde;o exclu&iacute;da das pol&iacute;ticas p&uacute;blicas e do mercado formal v&ecirc; na ocupa&ccedil;&atilde;o dos vazios urbanos a &uacute;nica sa&iacute;da poss&iacute;vel, tanto para o acesso &agrave; moradia, quanto para a press&atilde;o sobre o poder p&uacute;blico. &Eacute; esta realidade que os coloca &agrave; merc&ecirc; de exploradores e aproveitadores de todo tipo e tamanho.<\/p>\n<p>\tA aprova&ccedil;&atilde;o da Lei Municipal 11.807 de 2015, que institui 14 novas &Aacute;reas Especiais de Interesse Social (suspensa por liminar da Justi&ccedil;a ap&oacute;s pedido da Prefeitura), de autoria dos vereadores Pedro Ruas e Fernanda Melchiona (PSOL) &eacute; resultado da articula&ccedil;&atilde;o e uni&atilde;o das 14 ocupa&ccedil;&otilde;es contempladas, e de entidades profissionais, entre as quais o Instituto de Arquitetos do Brasil &ndash; Departamento Rio Grande do Sul, e Amigos da Terra Brasil, com apoio de estudantes e professores universit&aacute;rios, entre outros atores. A mobiliza&ccedil;&atilde;o apresentada durante todo o &aacute;rduo processo que levou &agrave; sua aprova&ccedil;&atilde;o &eacute; prova de que esta Lei n&atilde;o trouxe a desmobiliza&ccedil;&atilde;o alegada em entrevista na mat&eacute;ria, muito pelo contr&aacute;rio. Foi, outrossim, uma iniciativa popular que visava responder tanto &agrave; aus&ecirc;ncia de a&ccedil;&otilde;es p&uacute;blicas de promo&ccedil;&atilde;o de habita&ccedil;&atilde;o, quanto &agrave; amea&ccedil;a cotidiana de despejo sob a qual vivem estas comunidades.<\/p>\n<p>\tPor fim, declaramos veementemente nossa contrariedade a quaisquer pr&aacute;ticas legais ou ilegais de explora&ccedil;&atilde;o dos mais pobres, seja pela mercantiliza&ccedil;&atilde;o da cidade, ou por aproveitadores de plant&atilde;o. N&atilde;o podemos, contudo, corroborar vers&otilde;es dos fatos que acabam por criminalizar tanto as comunidades pobres, quanto movimentos sociais, e institui&ccedil;&otilde;es e profissionais dedicados &agrave; pr&aacute;tica da assessoria t&eacute;cnica comunit&aacute;ria de forma s&eacute;ria e respons&aacute;vel.<\/p><\/div>\n<div style=\"text-align: right;\">\n\t<br \/>\n\t&nbsp;<\/div>\n<div>\n\t<strong>Rafael Pavan dos Passos<\/strong><br \/>\n\t<strong>Arquiteto e Urbanista &#8211; Vice-Presidente do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB RS)<\/strong><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>IAB RS &#8211; Rafael Pavan dos Passos<\/p>\n","protected":false},"author":75245,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[40,43],"tags":[],"class_list":["post-10146","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-artigos","category-editorial"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/veraz.com.br\/iab\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10146","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/veraz.com.br\/iab\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/veraz.com.br\/iab\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/veraz.com.br\/iab\/wp-json\/wp\/v2\/users\/75245"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/veraz.com.br\/iab\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10146"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/veraz.com.br\/iab\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10146\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":11131,"href":"https:\/\/veraz.com.br\/iab\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10146\/revisions\/11131"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/veraz.com.br\/iab\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10146"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/veraz.com.br\/iab\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10146"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/veraz.com.br\/iab\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10146"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}